Jay – 142 Era uma vez...
Sabe? Lá
onde eu morava, na época do inverno, quando anoitecia, o céu ficava estrelado,
o luar permitia-nos distinguir com clareza todas as constelações e, ainda
vislumbrar um indefinido desfile de estrelas cadentes que se apresentavam sem
qualquer cerimônia, as quais, mesmo assim, a gente só conseguia ver com o rabo
dos olhos, de soslaio, pois sempre ocorria do lado inverso ao de nossa mira.
Aqui
embaixo, a lua, garbosamente refletida nos espelhos das poças d’água, era
resultado do temporal vespertino que inundava parcialmente os arredores,
assediando até mesmo os telhados bem estruturados, entupindo suas calhas,
fazendo verter água pelas paredes, causando um verdadeiro pânico.
As
conseqüências eram desagradáveis, mas de qualquer maneira, era eletrizante ver
a força da natureza; Ia escurecendo. Fazendo noite em pleno dia. O vento
soprava forte, provocando um zunido danado, levando o que podia. Os raios
cruzavam o céu de lado a lado, provocando trovões ensurdecedores. A chuva caía,
despencando verdadeiros medalhões de água que, batendo no chão, se espalhavam.
Seguia-se a saraiva, pedras de gelo redondas como bolinha de gude, parecendo
ter sido elaboradas pela natureza com um boleador de frutas, desabando a granel,
espalhando e tingindo de branco toda a vegetação, fazendo a temperatura
despencar até zerar o termômetro, apresentando o seu pingo de mercúrio vestido
com um pulôver vermelho.
Assim,
apesar desse rigor, dessa severidade da natureza, conseguíamos, após a
estiagem, distinguir as grandes estrelas que pouco a pouco, iam se escondendo
ante a presença do intolerante ruço que, como uma catarata, obscurecia a visão
de forma implacável.
Noite
adentro, o mercúrio não se agüentava e ia despencando escala abaixo. Enquanto
isso, a lareira ia comendo lenha, tentando espalhar calor pelo recinto, mas,
mesmo assim, estávamos todos tricotados da cabeça aos pés: gorros, blusas,
meias e que tais, saboreando um chocolate bem quente feito com o leite puro da
roça, batizado com uma boa dose de destilado de maça - bebida da região, o
nosso “GROG” - que, via de regra, era acompanhado do espetinho de queijo meia
cura, derretido no calor da lareira ao som de muitas lorotas.
Amanhecia,
as águas estavam duras no cano, a torneira nem respingava, só voltaria a
funcionar após ser aquecida pelas serpentinas, um sistema de canos galvanizados
que passavam pela boca do fogão a lenha, que, aceso, aquecia a água. É
interessante como funcionava, o cano saía do fundo da caixa d’água, descia por
toda a extensão da boca do fogão, voltava, então, à caixa com a bica do cano
entrando por cima. Nessa passagem pelo calor do fogo, a água esquentava e
retornava como um denso vapor, aquecendo todo o reservatório que ia liberando a
água.
É
incrível. O sistema tem tanta qualidade que quando o consumo é baixo, a água
chega a ferver na caixa. Existem alguns rancheiros que se utilizam do sistema
para aquecimento de cômodos da casa e até de celeiros, com ótimos resultados,
pois além de econômico, não há qualquer risco. Sempre é bom saber que a
simplicidade nos oferece agradáveis soluções.
A vida
continuava...
O sol
penetrava e secava o orvalho, fazendo a areia petrificada pela geada virar
poeira e folhas e frutas, envidraçadas pelo gelo derretido, escorrer em suas faces
como lágrimas de alegria pela chegada do rei. O dia podia, enfim, correr firme
com os raios solares queimando e pintando de escarlate a ponta do nariz e as
bochechas, fazendo-nos sentir irmãos da natureza e filhos de Deus.
Por
ocasião da construção do Palácio do Estado em Campos do Jordão, no caminho do
Baú, localidade onde se encontra a grande pedra com seus 340 metros, numa altitude 1950 metros, cuja escalada até hoje é feita de 370 degraus de ferro, propiciando magnífica vista dos vales da região, meu pai era um dos empreiteiros da obra.
Morávamos
nas proximidades da obra, numa modesta casa de madeira com cozinha, dois
quartos e banheirinho, não tinha sala; a entrada e saída eram porta única, o
piso ficava a dois degraus do solo.
Bem na frente
da porta, a uns três ou quatro metros, tinha um pequeno arvoredo com alguns pés
de frutas nativas, local onde as galinhas criadas soltas, iam pastar e ciscar o
chão, ali também minha mãe deixava os cochos com água e sobras de comida.
Nesse
arvoredo, era comum, toda as manhãs e de tardinha, chegarem os bandos de
serelepes, um monte, um montão, é um macaquinho (saguizinho), de mais ou menos
20/30 centímetros, mansos e alegres, vinham para participar das sobras de
alimento, água e pinhões, muito comuns por lá. Numa espécie de gratidão eles
ofereciam um belo espetáculo circense naqueles arvoredos. É uma pena, mas só eu
posso ainda ver as imagens daquelas apresentações, pois jamais esquecerei.
Ao lado da
porta tinha a janela onde ficava a pia, proporcionando à minha mãe, enquanto
trabalhava, um perfeito controle do que se passava nos limites do seu reino.
De lá,
via-se a estradinha dos roceiros a perder de vista, até a boca do matão...Ela
ficava sempre na espreita, não perdia um movimento... De repente, ela esfriava,
perdia todo o seu bom humor, quando ela avistava, lá no finzinho da estrada,
meu avô no seu cavalo pampa com dois nambus amarrados aos arreios, dançando no
requebro do corcel.
Não dava
outra, ele chegava, conversando um pouquinho, e dizia: LHONTA prepara esses
NAMBUS (eram dois), porque amanhã bem cedo estou saindo pro mato. Minha mãe já
sabia quando ele pintava no quadro da janela, punha água pra ferver... Antes
que meu avô piscasse as duas galinhas pretas já estavam sendo depenadas, após
isso, o resto era fácil... Como um frango mesmo, bem refogado nos temperos e
quando bem macio, soltando dos ossos, farinha de mandioca, até ficar aquela
farofa dos deuses.
Vô
Vitoriano queria sempre estar livre, independente, dono de seu nariz... Ele
armava a sua barraca perto da casa, soltava o PAMPA para dar umas voltas,
acendia uma bela fogueira e ficava ouvindo o barulho das matas até adormecer.
Lá pelas
tantas chamava o Pampa aos assobios, e saia sorrateiramente, vez por outra
alguém flagrava a sua desova, mas, quando se percebia, ele já estava lááááá
embaixo, no fim da picada, quase entrando na mata com sua capa gaúcha cobrindo
a anca do Pampa, que ia todo rebolativo, desfilando sob aquela imensidão de
estrelas, exibindo com toda galhardia, o meu vô Vitoriano a mãe natureza.
Na
verdade, de quando eu me lembro dele, já não tinha uma das pernas, e eu, como
todo garoto de uns 8 ou 9 anos no máximo, não me aproximava muito, tinha um
certo medo dele.
De vez em
quando ele ficava uns dias em casa, sempre muito nervoso, bravo, impunha um
certo terror no ambiente. Sem qualquer preconceito, deitava lá no gramado com a
perna de pau ("quinem" a dos piratas dos Gibis)jogada do lado,
tomando sol e conversando com um ou outro que passava por ali.
Ele
adorava o meu irmão mais velho, o Jersinho para os íntimos, mas Jefinho para
ele. Às vezes ele gritava lá do quintal: “Jefinho, me traz um copo d’água”. Eu
ouvia, mas me mancava; Um pouquinho depois aparecia o Jefinho com a água. Este
meu irmão foi sempre muito carinhoso e tratava o meu avô com afago, sem medo.
Não raro eu ouvia meu avô comentar com ele: Aquele rato-branco não serve pra
nada (rato-branco era eu).
Ele era
roceiro e criador, mas depois do acidente, ficou só com umas pastagens e alguns
animais. Mesmo depois que perdeu a perna, ele continuou montando e fazendo os
seus trambiques. Dizia pra minha mãe: “Assim que aquela Eguinha estiver no
ponto, a primeira cria eu vou dar pro Jefinho”. Fato este, consumado e
comunicado algum tempo depois. Enfim meu irmão ganhara um cavalinho.
Meu Avô
era um caçador solitário, passava dias e dias sobrevivendo nas matas da serra
da Mantiqueira, na região da Pedra do Baú, até as barrocas de Cruzeiro, no vale
do Paraíba, levava só farinha e sal , o resto ele tinha que se virar.
Foi num
dessas jornadas que aconteceu o acidente. Logo que chegou no local da mata,
onde ia montar o acampamento, apiou do cavalo, armou a cartucheira, encostou a
arma numa arvore e partiu com o facão para a limpeza do terreno, e lá pelas
tantas, não se sabe como, a cartucheira cai e dispara os dois tiros em uma de
suas pernas, moendo o osso da canela.
Sozinho, assim que conseguiu saber do estrago, fez uns
torniquetes, arrastou-se até o cavalo, montou (nem ele e nem ninguém sabe como)
e veio de volta até um ponto de passagem, onde foi encontrado caído. Daí em
diante, agito total até a chegada ao dispensário de Campos do Jordão, onde
fizeram o serviço.Uns dizem que foi o vento, outros que teria sido algum bicho
assustado que derrubou a arma. As histórias do meu Vô Joaquim Vitoriano sempre
foram levadas no sentido jocoso (mentirosas), mas movimentaram durante muitos
anos, as prosas noturnas dos roceiros da região e até mesmo em famosas Rádios
Emissoras, contadas e cantadas pelos “caipiras” cantadores.
Alguns anos depois do acidente, ele veio a falecer, não sei
do que, mas provavelmente de tuberculose, a grande vilã daquela época.
Mas suas historia continuam desfilando na região, com
outros protagonistas que de qualquer forma mantém vivo o lendário CAÇADOR
SOLITÁRIO.
Era uma vez...
Bento, Jayme Bento
Jay/fim...

















